Daniel Alcides Carrión: a experiência que mudou a história da medicina
Mike MunayCompartilhar
Introdução: A experiência que mudou a história da medicina
Houve um tempo na história da medicina em que o conhecimento avançava não num laboratório, nem entre microscópios reluzentes, mas dentro do próprio corpo de um homem. Um estudante de medicina que decidiu ultrapassar uma linha que hoje consideraríamos impensável.
Daniel Alcides Carrión sabia que a doença que assolava os Andes não era bem compreendida. Sabia também que ninguém estava disposto a correr o risco de provar a sua origem.
Então fez sozinho. Mesmo sabendo que ia morrer a fazê-lo.
A sua morte não foi um acidente. Foi uma experiência.
E isso mudou a história da medicina para sempre.
Quem foi Daniel Alcides Carrión?
Daniel Alcides Carrión García foi um estudante de medicina peruano nascido a 13 de agosto de 1857, em Cerro de Pasco, num país que ainda estava a desenvolver a sua identidade científica e de saúde. Viveu numa época marcada por epidemias, escassez de recursos médicos e um conhecimento muito limitado sobre as doenças infeciosas. Para alguém com curiosidade científica, este contexto representava um desafio, e não um obstáculo.
Desde jovem que se destacou pela sua disciplina, curiosidade intelectual e uma invulgar obsessão em compreender as verdadeiras origens das doenças que afligiam a população andina. Enquanto muitos aceitavam explicações vagas ou supersticiosas, Carrión procurava provas, mecanismos e causas. Interessou-se pela medicina como ferramenta para reduzir o sofrimento humano.
Os seus colegas descreviam-no como meticuloso, sério e profundamente comprometido com a sua vocação. Não era um génio excêntrico nem um revolucionário extravagante. Era alguém disposto a levar a lógica científica às suas últimas consequências.
A doença que devastou a população andina: duas faces da mesma enfermidade.
Durante décadas, uma doença estranha e silenciosa vagueou pelos Andes como uma visitante amaldiçoada. Não aparecia nas grandes cidades costeiras, nem atravessava os oceanos. Habitava as regiões mais altas, em vales específicos, em zonas de altitude média onde o clima parecia conspirar com algo que a medicina ainda não conseguia nomear.
A sua presença concentrava-se sobretudo nos Andes peruanos, embora não se limitasse às fronteiras. Aparecia também em regiões andinas do que são hoje o Equador e a Colômbia, sempre ligada ao mesmo ecossistema. Fora desse ambiente, simplesmente não existia. Como se precisasse das montanhas para sobreviver. Esta distribuição precisa intrigava os médicos e alimentava o medo.
Nessa altura, a doença não tinha um nome único. A medicina acreditava estar a lidar com duas doenças completamente distintas, com comportamentos opostos e desfechos radicalmente distintos. Ninguém suspeitava que, na realidade, se tratava de duas fases da mesma infecção.
A doença mais temida era a Febre de Oroya. O seu início era abrupto e devastador. O paciente desenvolvia febre alta, exaustão extrema e uma anemia tão severa que o corpo parecia entrar em colapso por dentro. O sangue perdia a capacidade de transportar oxigénio, os órgãos começavam a falhar e a morte chegava em poucas semanas. Em alguns surtos históricos, a mortalidade atingiu números alarmantes, ultrapassando os 50% e, em certos contextos, chegando perto dos 90%. Para muitas comunidades andinas, adoecer era o mesmo que receber uma sentença de morte iminente.
A verruga peruana apresentava características bastante diferentes. Os que sobreviviam à fase inicial desenvolviam lesões cutâneas proeminentes, avermelhadas e, por vezes, com hemorragia, semanas ou meses depois. Embora dolorosas e desfigurantes, raramente eram fatais. Esta fase crónica podia durar meses e permitia uma recuperação gradual. Devido ao seu curso mais benigno, presumia-se que não tinha qualquer relação com a febre letal.
A contradição era óbvia: uma doença matava rapidamente; a outra permitia que as pessoas vivessem.
Ninguém conseguia ligar as duas realidades.
Na ausência de explicações científicas, a imaginação tomou o lugar da medicina. Falava-se do ar impuro das montanhas, das maldições, dos castigos divinos... A doença era vista como uma parte inevitável da vida a grandes altitudes. Era um fenómeno cultural carregado de resignação e de medo.
Não havia cura. Nem sequer havia certezas. Ninguém sabia o que causava a doença nem como se transmitia. Era contagiosa? Dependia do clima? Do ambiente?
A medicina da época mal conseguia sustentar o doente à medida que a doença progredia. E o mais perturbador era que não se tratava de uma doença recente. Hoje sabemos que estava presente há séculos, afetando até populações pré-colombianas, sem que ninguém tivesse conseguido desvendar a sua natureza.
Verruga peruana - Doença de Carrión
Por Ceshencam - Trabalho próprio, Domínio público, Link
A morte que mudou a medicina
Ao aprofundar o estudo da doença, Daniel Alcides Carrión começou a detetar padrões que outros tinham ignorado. Observou que alguns doentes sobreviviam à fase mais agressiva e, algum tempo depois, desenvolviam as lesões cutâneas características da verruga peruana. Não se tratava de uma coincidência isolada. Era uma sequela. Um continuum clínico que ninguém tinha conseguido acompanhar do início ao fim.
As suas convicções intelectuais levaram Carrión a rejeitar a ideia de duas doenças coexistirem sem uma explicação lógica. A medicina, acreditava, não podia basear-se em suposições ou tradições herdadas. Ela precisava de provas.
A cada observação, a hipótese tornava-se mais clara e perturbadora. Se a febre mortal e as verrugas fossem fases distintas do mesmo processo, então só havia uma forma de o provar sem sombra de dúvida: documentar a doença desde o seu início, num único organismo, sem interferências externas. Não bastava observar outros. Era necessário acompanhar todo o processo.
Nenhuma experiência aceite na altura teria permitido rastrear a evolução completa da doença. Não existiam modelos animais fiáveis, nem métodos para isolar o agente causador, e nenhum doente sobrevivente podia fornecer um registo clínico completo desde a infeção inicial. As provas necessárias simplesmente não existiam. Precisavam de ser criadas.
Foi então que Carrión decidiu inocular-se com a doença e morrer a analisá-la.
A decisão não foi impulsiva. Foi gradual, quase inevitável. Aceitou que a experiência teria consequências fatais, mas também que a sua morte poderia resolver uma questão que custava vidas há décadas. No seu raciocínio, o risco individual era insignificante comparado com o benefício coletivo. Se o conhecimento não pudesse avançar sem ultrapassar essa linha, ele estava disposto a fazê-lo. Estava convencido de que, naquele contexto histórico, morrer era a única forma de obrigar a medicina a confrontar-se com a verdade.
O legado científico de Daniel Alcides Carrión
O procedimento foi tão simples quanto aterrador. Não existiam instrumentos sofisticados nem condições laboratoriais. A fonte da infeção era uma lesão ativa de verruga peruana pertencente a um doente que tinha sobrevivido à fase aguda da doença. Destas verrugas foi extraído material biológico fresco, lesões vasculares avermelhadas e sangrantes. Ali estava o agente que Carrión procurava.
Daniel Alcides Carrión inoculou-se com este material escarificando a pele, fazendo pequenas incisões superficiais em ambos os braços. O objetivo era induzir a doença desde o seu início e registar cada etapa da sua progressão.
Desde o primeiro dia, Carrión começou a documentar meticulosamente as mudanças no seu corpo. Anotou o início da febre, a progressão do mal-estar geral, o aumento da fraqueza e os sinais de anemia. Registou o seu pulso, temperatura, estado mental e capacidade funcional. Quando o seu estado físico começou a deteriorar-se, continuou a ditar as suas observações aos colegas, que assumiram a tarefa de manter o registo clínico quando já não conseguia escrever.
Com o passar dos dias, os sintomas confirmaram a hipótese. A doença não se manifestava diretamente em lesões cutâneas, como muitos acreditavam. Primeiro vinha a fase devastadora: febre persistente, exaustão extrema, palidez profunda e a sensação de sufoco interno característica de anemia grave. O corpo entrava num processo de colapso progressivo.
Mesmo quando a fragilidade já era evidente e o resultado inevitável, o registo não foi interrompido. Cada sintoma foi anotado. Cada mudança, descrita. Não havia volta a dar, nenhuma tentativa de parar a experiência. O valor do conhecimento adquirido dependia precisamente de não intervir.
Carrión não estava a tentar sobreviver à provação. Tentava provar, com o seu próprio corpo, que a febre mortal e a verruga peruana não eram doenças separadas, mas antes fases consecutivas da mesma infecção. Os seus registos clínicos documentavam uma verdade que a medicina já não podia ignorar.
Daniel Alcides Carrión faleceu em Lima, no Peru, a 5 de outubro de 1885, com 28 anos. Tinham passado aproximadamente 39 dias desde que foi deliberadamente inoculado com o material infeccioso.
Morreu sem ter atingido a fase eruptiva da doença, mas com a sua hipótese já confirmada e clinicamente documentada: a febre mortal e a verruga peruana faziam parte do mesmo processo patológico.
O seu corpo foi sepultado no mausoléu do Hospital Nacional Dos de Mayo
Reconhecimento e memória histórica: do mártir ao símbolo científico
A investigação sobre a doença continuou após a morte de Carrión e, alguns anos após o seu falecimento, a ciência conseguiu finalmente nomear o inimigo que Daniel Alcides Carrión enfrentou com o seu próprio corpo.
O agente causador da doença foi identificado como Bartonella bacilliformis, assim designada em homenagem ao seu descobridor, o microbiologista Alberto Barton. Com esta descoberta, a medicina pôde fechar o ciclo que Carrión abrira com a sua experiência.
Foi então que a febre de Oroya e a verruga peruana deixaram de existir como entidades separadas. Ambas passaram a ser entendidas como manifestações clínicas da mesma infecção, que a comunidade médica renomeou oficialmente como doença de Carrión.
O avanço seguinte foi crucial: descobrir como a doença era transmitida. No início do século XX, demonstrou-se que o contágio não dependia do clima ou da altitude, mas sim de um vetor biológico específico.
Um pequeno inseto hematófago do género Lutzomyia, conhecido por flebótomo, introduziu a bactéria na corrente sanguínea através da sua picada.

Esta revelação explicou porque é que a doença estava restrita a certos vales interandinos e porque é que nunca se espalhou para fora deste ecossistema.
Com a identificação do agente causador e do mecanismo de transmissão, a doença deixou de ser um mistério incontrolável.
A introdução dos antibióticos veio alterar radicalmente o prognóstico. Hoje, o tratamento baseia-se em medicamentos eficazes como a azitromicina, a doxiciclina ou as fluoroquinolonas, enquanto nos casos mais graves, são utilizados regimes específicos sob supervisão hospitalar. O que durante séculos foi uma sentença de morte quase certa tornou-se uma infecção tratável se diagnosticada precocemente.
Graças a estes avanços, a doença de Carrión é hoje considerada uma condição endémica e residual. Ainda existe, mas está limitada a zonas rurais muito específicas do Peru e, em menor escala, a outros países andinos.
Já não é uma doença comum ou devastadora. Com cuidados médicos adequados, a taxa de mortalidade actual é muito baixa, geralmente inferior a 5%, e os óbitos são excepcionais, quase sempre associados a atrasos no diagnóstico ou a contextos de extrema carência de cuidados de saúde.
O reconhecimento de Carrión vai para além da esfera clínica. A sua figura ocupa um lugar singular na história da medicina mundial como um dos exemplos mais extremos de auto-experimentação científica documentada.
No Peru, o seu legado é ainda mais profundo. O dia 5 de outubro, data da sua morte, é oficialmente comemorado como o Dia da Medicina Peruana. O seu nome está presente em universidades, hospitais, faculdades e centros de investigação. Monumentos, bustos e estátuas são erguidos em sua homenagem.
O legado de Carrión não se mede apenas em nomes científicos ou edifícios que têm o seu nome. Mede-se numa doença que deixou de ser invencível. A sua morte não erradicou a bactéria, mas erradicou a ignorância que a tornava letal. E isso, em ciência, é uma forma eficaz de imortalidade.
Reflexão: Ética científica
Hoje, a experiência de Daniel Alcides Carrión seria impensável. Nenhum comité de ética o aprovaria. Nenhuma universidade o permitiria. E, no entanto, grande parte da medicina moderna baseia-se em perguntas que alguém teve a ousadia de fazer quando ainda não existiam regras claras.
Daniel Alcides Carrión não agiu por imprudência ou desejo de glória. Agiu a partir de uma perspetiva científica radical. Se uma doença estava a matar pessoas por falta de compreensão, compreendê-la era um imperativo moral. A sua tragédia foi viver numa época em que a única ferramenta disponível para responder a determinadas questões era o próprio corpo.
A ética médica moderna existe, em parte, para evitar sacrifícios como o dele. Mas também existe por causa deles. Cada protocolo, cada ensaio clínico regulamentado e cada consentimento informado transporta consigo uma lição aprendida demasiado tarde por outra pessoa.
Carrión não é um modelo a seguir. Representa um limite que não deve ser ultrapassado novamente. Mas esquecer a sua história seria ainda mais perigoso: significaria esquecer que o conhecimento tem um preço e que a ciência, quando realmente avança, nos obriga sempre a fazer a mesma pergunta incómoda.
Até onde estamos dispostos a ir para perceber o que nos está a matar?
Perguntas frequentes
O que é a doença de Carrión?
A doença de Carrión é uma infeção provocada pela bactéria Bartonella bacilliformis, endémica de certos vales interandinos. Historicamente, era descrita como duas entidades distintas (febre de Oroya e verruga peruana), até que se compreendeu que se tratam de fases do mesmo processo.
Qual a diferença entre a febre de Oroya e a verruga peruana?
A febre de Oroya é a fase aguda, caracterizada por febre alta e anemia grave, com risco de complicações graves. A verruga peruana é a fase crónica, marcada por lesões cutâneas avermelhadas e sangrantes que podem durar meses, geralmente com uma menor taxa de mortalidade.
Como se transmite a doença de Carrion?
É transmitida pela picada de insetos vetores do género Lutzomyia (mosquitos da areia). Ao alimentar-se de sangue, o vetor pode introduzir a bactéria no organismo.
É uma doença exclusiva do Peru?
Não. Embora historicamente o maior número de casos tenha sido documentado no Peru, a doença foi também descrita noutras regiões andinas da América do Sul, sempre associada a ecossistemas muito específicos onde o vetor consegue sobreviver.
Ainda é perigoso hoje em dia?
Pode ser grave se não for diagnosticada e tratada prontamente, especialmente durante a fase aguda. No entanto, com os cuidados médicos adequados, o prognóstico melhorou significativamente e a taxa de mortalidade atual é muito baixa.
Que antibióticos são utilizados para tratar a doença de Carrión?
O tratamento depende do estádio clínico e da gravidade da doença. São utilizados antibióticos como a azitromicina ou a doxiciclina e, em alguns casos, são empregues fluoroquinolonas ou outros esquemas terapêuticos sob vigilância médica, especialmente em casos graves ou com complicações.
A doença de Carrion foi erradicada?
Não foi erradicada. Hoje é considerada endémica e residual: ainda existe em zonas rurais específicas, mas o seu impacto é muito menor graças ao diagnóstico, ao tratamento com antibióticos e às medidas de controlo vectorial.
O que demonstrou Daniel Alcides Carrión com a sua experiência?
Demonstrou a continuidade clínica entre a fase aguda fatal (febre de Oroya) e a fase cutânea crónica (verruga peruana), fornecendo evidências de que não se tratavam de duas doenças diferentes, mas sim de duas manifestações do mesmo processo infeccioso.
Uma experiência como a de Carrión seria ética nos dias de hoje?
Não. Atualmente, uma experiência de autoinoculação com risco de vida não seria aprovada por nenhum comité de ética. A investigação biomédica moderna rege-se pelos princípios de segurança, consentimento informado e minimização de danos.
Como é que Daniel Alcides Carrión é oficialmente recordado no Peru?
No Peru, é reconhecido como uma figura fundadora da medicina nacional. O dia 5 de outubro, data da sua morte, é comemorado como o Dia da Medicina Peruana, e o seu nome está presente nas instituições de saúde, instituições académicas e memoriais.
1 comentário
La profesión de Medicina es una noble carrera que demanda mucha dedicación y todo tipo de sacrificios .Alcides Carrión es uno de los referentes peruanos .En esa línea de sacrificios y riesgos están los médicos jóvenes peruanos que hacen el Servicio Rural y Urbano Marginal -SERUM , en zonas y comunidades de difícil acceso geográfico como en la Cordillera de Los Andes y la Selva Amazónica ,servicio que algunas veces cobra la vida de estos médicos.