Quando a luz engana o cérebro e provoca um espirro
Mike MunayCompartir
Vai pela rua e nota aquele formigueiro no nariz que anuncia um espirro. Para, espera, mas não chega. Fica ali, a meio caminho, como bloqueado. Frustra mais do que devia.
Então faz o que já sabe que funciona. Levanta a cabeça e olha diretamente para uma luz intensa. O sol, um candeeiro de rua, o que for. Mantém o olhar por alguns segundos.
E acontece. O espirro sai de repente, inevitável.
Alguém por perto olha para si com uma cara estranha. Não entende nada. Por que alguém espirraria ao olhar para uma luz?
O que acabou de ver tem um nome. É o reflexo fototussígeno. E não, não acontece a toda a gente.
O que é o reflexo fototussígeno
O reflexo fototussígeno é uma resposta automática do corpo em que uma pessoa sente a necessidade de espirrar ao ser exposta subitamente a uma luz intensa, como o sol. Não é uma alergia nem uma doença, mas sim um fenómeno neurológico em que um estímulo visual acaba por ativar o mecanismo do espirro, como se o corpo interpretasse esse sinal luminoso como algo que deve expulsar.
De um ponto de vista técnico, o reflexo fototussígeno é o resultado de uma interação cruzada entre vias nervosas que, em princípio, não deveriam interferir entre si.
A luz intensa ativa o nervo ótico, que transmite o sinal da retina para o cérebro. Em paralelo, o reflexo do espirro depende principalmente do nervo trigémeo, responsável pela sensibilidade do rosto e da mucosa nasal. Ambos os circuitos convergem em regiões próximas do tronco encefálico, especialmente na área do núcleo do trigémeo.
Em algumas pessoas, esta proximidade funcional permite que a ativação intensa do nervo ótico “extravase” ou estimule de forma indireta o nervo trigémeo. O cérebro interpreta então esse sinal como uma irritação nasal, embora não exista nenhum agente físico no nariz.
O resultado é um espirro desencadeado pela luz. Não porque a luz irrite diretamente a mucosa nasal, mas porque o sistema nervoso, nesse cruzamento de sinais, confunde a origem do estímulo.
Quantas pessoas têm o reflexo fototussígeno?
O reflexo fototussígeno não é raro. Estima-se que afeta aproximadamente entre 10% e 30% da população, embora muitas pessoas o experienciem sem saber que tem um nome.
A evidência científica aponta para uma base genética. Foram identificados padrões familiares claros, o que sugere que é hereditário, provavelmente como um traço autossómico dominante. Se um dos seus pais o tem, é bastante provável que você também o tenha. De facto, como está presente desde o nascimento e geralmente é partilhado na família, muitas pessoas crescem pensando que é algo completamente normal que acontece a toda a gente. E não, não é assim.
Como aparece? É um problema de saúde?
Não costuma ser adquirido ao longo do tempo nem desaparecer. É uma característica estável do sistema nervoso, presente desde o nascimento, embora algumas pessoas o descubram mais tarde simplesmente porque nunca tinham reparado.
Não existe tratamento para o eliminar, mas também não é necessário. Não representa um problema de saúde nem está associado a nenhuma doença. Na prática, é apenas uma curiosidade neurológica. No entanto, pode ser incómodo em situações específicas, como ao sair de um túnel a conduzir ou ao ser exposto subitamente a uma luz muito intensa, onde um espirro inesperado pode ser inoportuno.
O reflexo fototussígeno depende de algum gene conhecido?
Não se conhece um único gene responsável pelo reflexo fototussígeno. O que sabemos é que tem uma base genética clara, mas não é um traço mendeliano “limpo” controlado por um único gene identificado e confirmado.
Os estudos de associação genética apontaram para algumas regiões do genoma que poderiam estar envolvidas, especialmente zonas relacionadas com o desenvolvimento e a conectividade do sistema nervoso. Um dos candidatos mais mencionados é o gene ZNF804A, que está ligado a processos de sinalização neuronal e conectividade entre neurónios. Ainda assim, a evidência não é definitiva e não se pode dizer que exista “o gene do espirro pela luz”.
O mais provável é que seja um traço poligénico, ou seja, que dependa da combinação de vários genes que afetam a forma como o nervo ótico e o trigémeo se conectam e comunicam. Basicamente, uma pequena “peculiaridade de cablagem” no sistema nervoso que, em algumas pessoas, faz com que a luz ative um circuito que normalmente não deveria.
Infografia
Por que algumas pessoas espirram ao olhar para uma luz intensa. Um cruzamento de impulsos nervosos no sistema nervoso.
A luz ativa o nervo ótico. Em algumas pessoas, o sinal "extravasa" para o nervo trigémeo no tronco encefálico, gerando um espirro sem que haja irritação nasal real.
FAQs. Perguntas frequentes sobre o reflexo fototussígeno
O que é exatamente o reflexo fototussígeno?
O reflexo fototussígeno é uma resposta involuntária em que uma luz intensa, especialmente se aparecer de forma repentina, desencadeia vontade de espirrar ou um espirro real. Não se deve a que a luz irrite o nariz, mas sim a como alguns sinais nervosos se cruzam no sistema nervoso.
Por que uma luz forte pode provocar um espirro?
A explicação mais aceita é que a ativação brusca do sistema visual pode estimular de forma indireta circuitos relacionados com o nervo trigémeo, que participa na sensibilidade do nariz e no reflexo do espirro. O cérebro acaba por interpretar esse sinal como se existisse uma irritação nasal.
É o mesmo que ter alergia ao sol?
Não. O reflexo fototussígeno não é uma alergia e não implica uma reação imunológica contra a luz. É um fenómeno neurológico, enquanto uma alergia requer a participação do sistema imunitário contra uma substância ou estímulo específico.
Pode ocorrer apenas com o sol ou também com outras luzes?
Pode aparecer com qualquer fonte luminosa suficientemente intensa se a mudança de exposição for brusca. O sol é o desencadeante mais típico, mas algumas pessoas também o notam com focos potentes, faróis ou luzes médicas muito intensas.
O reflexo fototussígeno significa que há algum problema neurológico?
Não costuma indicar nenhuma doença. Na grande maioria dos casos, é considerado uma variante normal do funcionamento nervoso, uma peculiaridade na forma como certas vias sensoriais se comunicam entre si.
Nasce-se com este reflexo ou pode aparecer mais tarde?
O habitual é que esteja presente desde o nascimento, embora muitas pessoas só se apercebam disso quando começam a reparar ou quando descobrem que não acontece a toda a gente. Não é considerado um traço que normalmente se adquire de repente na vida adulta.
Tem relação com a genética?
Tudo aponta para que sim. Observam-se padrões familiares com bastante frequência, o que sugere uma base hereditária, embora não tenha sido identificado um único gene responsável que explique por si só o fenómeno.
Sabe-se quantas pessoas o têm no mundo?
As estimativas mais citadas situam a sua frequência entre cerca de 10% e 30% da população, embora o número varie consoante o estudo e a forma de o medir. Essa diferença existe porque muitas pessoas nunca foram avaliadas e porque o fenómeno nem sempre é definido da mesma forma.
Existe algum nome científico alternativo para este reflexo?
Sim. Na literatura biomédica, também é conhecido como reflexo estornutatório fótico ou, em inglês, photic sneeze reflex. Ambos os nomes descrevem a mesma resposta fisiológica desencadeada pela luz.
Pode ser perigoso em alguma situação específica?
Por si só, geralmente não representa um problema de saúde, mas pode ser incómodo ou inoportuno em contextos em que um espirro repentino reduza a atenção por alguns segundos, como ao conduzir, ao sair de um túnel ou ao olhar para uma luz intensa de forma inesperada.
Referencias
Reflexo fototussígeno: por que algumas pessoas espirram quando olham para a luz
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