O que é ciência?
Alguém grava um vídeo com o celular para explicar que a Terra é plana e que a gravidade é balela. Quando a gravação termina, o aparelho acrescenta ao arquivo a localização exata. Ele a calcula ouvindo uma constelação de satélites que giram em torno de um planeta esférico, presos pela mesma gravidade que o autor do vídeo acaba de negar. Os relógios desses satélites são ajustados para compensar 38 microssegundos por dia, como mandam as equações de Einstein. O vídeo vai ao ar em segundos. Na mesma noite, milhares de pessoas vão assistir.
Nunca soubemos tanto. Em 2023, só a base de dados Scopus registrou 3,3 milhões de novos artigos de ciência e engenharia, mais de seis por minuto. Calcula-se que as vacinas tenham evitado 154 milhões de mortes desde 1974. E nunca foi tão fácil negar tudo isso sem sair do sofá.
O sarampo, que tem vacina desde 1963, infectou cerca de 11 milhões de pessoas em 2024 e matou cerca de 95 mil, principalmente crianças com menos de cinco anos. A imensa maioria dessas mortes acontece em países pobres ou com sistemas de saúde frágeis, onde a vacina não chega a todos. Naquele ano houve grandes surtos em 59 países, quase o triplo do registrado três anos antes.
Mas o vírus também volta aonde vacina é o que não falta, a países que o tinham eliminado, ou seja, onde ele havia deixado de circular de forma contínua. Os Estados Unidos conseguiram isso em 2000. Fecharam 2025 com 2.289 casos, o pior número desde 1991, e no início de setembro de 2026 já somavam 3.134, quase nove em cada dez deles entre pessoas não vacinadas ou com situação vacinal desconhecida. As Américas perderam em novembro de 2025 o status de região livre do sarampo endêmico, depois que o vírus circulou durante pelo menos um ano seguido no Canadá, sobretudo em comunidades pouco vacinadas. Em janeiro de 2026, seis países europeus perderam o mesmo status, entre eles o Reino Unido e a Espanha.
O Brasil conhece bem essa história. Recebeu o certificado de eliminação em 2016 e o perdeu em 2019, depois que um vírus trazido de fora no ano anterior encontrou a cobertura vacinal em queda. Só o recuperou em novembro de 2024, depois de quase 40 mil casos e 40 mortes.
Outras doenças já fizeram esse caminho. Nas últimas décadas do século 20, as campanhas contra a vacina da coqueluche derrubaram a vacinação em vários países, entre eles o Reino Unido e o Japão, e a doença chegou lá a uma incidência de dez a cem vezes maior do que nos países que continuaram vacinando. Em 2003, três estados do norte da Nigéria suspenderam a vacinação contra a pólio por causa do boato de que as doses continham hormônios esterilizantes e o HIV. O boicote durou onze meses. O vírus saiu da Nigéria e voltou a cerca de vinte países que já estavam livres da pólio, a maioria africanos, até chegar à Indonésia. Mais de 1.500 crianças ficaram paralíticas.
Numa pesquisa online feita em 2021 com 1.134 adultos dos Estados Unidos, um em cada dez disse concordar que a Terra é plana e uma parcela quase igual disse não ter certeza. Uma análise de 126 mil histórias checadas que circularam no Twitter entre 2006 e 2017 mostrou que as falsas tinham 70% mais chance de ser compartilhadas do que as verdadeiras.
A maioria ainda confia. Quando uma equipe internacional ouviu 71.922 pessoas em 68 países, a confiança média nos cientistas ficou em um nível moderadamente alto e nenhum país caiu na faixa baixa. Mas essa confiança vem se desgastando. Nos Estados Unidos, onde ela é medida quase todo ano, caiu de 87% em 2020 para 73% em 2023 e em 2025 continuava dez pontos percentuais abaixo do patamar inicial. A convicção de que as vacinas infantis são importantes recuou durante a pandemia em 52 dos 55 países analisados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Nunca tanta gente ouviu alguém colocar a ciência em xeque. Qualquer pessoa com um celular alcança hoje milhões de outras sem que ninguém lhe peça uma única prova. Parte dessa desinformação é negócio e o resto é ignorância com megafone. Quem desconfia ainda é minoria, mas o sarampo se contenta com pouco. Frear seus surtos exige que pelo menos 95% da população tenha as duas doses da vacina. Para o vírus, tanto faz se quem ficou de fora recusou a vacina ou se ela nunca chegou.
A pergunta sobre como sabemos que algo é verdade é muito mais velha que os celulares. Durante quase toda a história, a resposta de costume foi obedecer a quem mandava e à tradição. Sempre houve quem preferisse ir lá olhar, mas essa outra resposta, bem mais incômoda, só começou a se impor há poucos séculos. Consiste em medir e deixar que outra pessoa também meça, sobretudo se ela não for com a sua cara.
Convém então saber ao certo o que é isso que uns defendem sem ter olhado de perto e outros atacam sem conhecer.
O que é ciência e como ela sabe o que sabe
A ciência é um método para descobrir como o mundo funciona e, ao mesmo tempo, o conjunto de conhecimentos que esse método foi acumulando. Ela observa, propõe uma explicação, deduz o que deveria acontecer se essa explicação estivesse certa e vai conferir. O que passa no teste é mantido enquanto continuar passando nos seguintes. O que falha repetidas vezes acaba descartado, não importa quem tenha dito.
Por definição, a ciência é um conjunto ordenado de conhecimentos obtidos por observação e raciocínio, dos quais saem leis que fazem previsões e podem ser testadas com experimentos. A palavra vem do latim scientia, conhecimento. O peso da definição está no fim, em prever e testar, duas exigências que quase nenhum outro saber impõe a si mesmo.
Método científico, um circuito de idas e vindas
O método científico costuma ser ensinado em seis etapas. Observar, perguntar, propor uma hipótese, deduzir uma previsão, colocá-la à prova e publicar o resultado para que outros o repitam. As seis formam um circuito. Quando a previsão falha, é preciso voltar e rever a hipótese. Quando acerta, alguém tenta derrubá-la de outro ângulo.
Há mais de 2.200 anos, Eratóstenes, bibliotecário em Alexandria, sabia que em Siene, a atual Assuã, os objetos não projetavam sombra ao meio-dia do solstício de verão e que em Alexandria projetavam. Supôs que a Terra era uma esfera e que os raios do Sol chegavam paralelos, mediu a sombra, usou a distância entre as duas cidades e calculou a circunferência do planeta. Deu 250 mil estádios. Os historiadores ainda discutem quanto media o estádio que ele usou e, com isso, o tamanho do erro. Já o procedimento pode ser repetido hoje por uma escola com duas varetas e um telefonema.
Nem toda ciência cabe num laboratório. Um astrônomo não pode acender uma estrela para ver o que acontece e uma paleontóloga não pode repetir o Cretáceo. O método serve do mesmo jeito. Eles deduzem o que deve ser observado se a ideia estiver certa e vão procurar, com o risco real de não encontrar. Esse risco separa uma hipótese científica de uma opinião.
Hipótese, lei e teoria, três palavras que se confundem
Essas três palavras mudam de sentido quando entram num laboratório. Uma hipótese é uma proposta que ainda precisa ser testada. Uma lei descreve uma regularidade, por exemplo como um objeto cai, sem explicar por que isso acontece. Uma teoria é a explicação. Quem diz na rua "é só uma teoria" usa como sinônimo de palpite a palavra que na ciência dá nome a uma explicação posta à prova. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos a define como uma explicação bem fundamentada de algum aspecto do mundo natural, capaz de incorporar fatos, leis, inferências e hipóteses testadas.
Uma teoria não vira lei quando é confirmada, porque as duas respondem a perguntas diferentes. A gravitação tem leis que descrevem a queda e uma teoria, a relatividade geral, que a explica. As teorias que resistiram a mais testes estão entre o que temos de mais sólido. A dos germes, a atômica, a da tectônica de placas e a da evolução vêm passando nesses testes há décadas. É com elas que se trabalha todo dia, do centro cirúrgico ao observatório sismológico.
Uma máquina de se corrigir
Cientistas erram e às vezes mentem, como qualquer pessoa. O sistema conta com isso. Um resultado passa pela revisão de especialistas de fora do estudo antes de ser publicado e, se o assunto importa, outras equipes tentam repeti-lo. Em 2015, 270 pesquisadores refizeram cem estudos de psicologia já publicados. Dos originais, 97% tinham dado um resultado estatisticamente significativo. Entre as repetições, 36%. Foi um golpe para a área e ela mesma o desferiu em público, coisa que poucas instituições fazem por vontade própria.
O mito que liga vacinas ao autismo mostra como essa máquina trabalha e quanto demora. Em 1998, um artigo baseado em doze crianças sugeriu uma ligação entre o autismo e a vacina tríplice viral, que inclui a do sarampo. Outras equipes foram atrás dela e não a encontraram. A revista que o publicou se retratou do artigo em 2010, depois que o Conselho Médico Geral britânico (GMC) considerou comprovado que ele continha afirmações falsas sobre a seleção das crianças e sobre a aprovação ética do estudo. Um ano depois, a revista médica BMJ publicou a investigação do jornalista Brian Deer e classificou o artigo como fraude. Em 2019, um estudo dinamarquês voltou a procurar essa ligação em 657.461 crianças, quase 55 mil vezes mais do que no original, e também não encontrou risco maior de autismo entre os vacinados. O mito continua circulando. A correção, que é a parte científica da história, viaja muito mais devagar. Fazê-la chegar é o trabalho da nossa série Derrubando mitos.
Por que não dá para negar sem provas o que a ciência comprovou
Um estudo isolado, por mais bem publicado que esteja, é uma proposta à espera de confirmação. A repetição de 2015 mostra que, pelo menos na psicologia, muitas dessas propostas não se sustentam quando alguém refaz o experimento. A palavra "comprovado" fica reservada para o que vem depois. Quer dizer que uma ideia fez previsões que podiam falhar e não falharam, e que evidências independentes, obtidas com métodos diferentes por gente que não se conhece, apontam para o mesmo lugar. É uma certeza prática, diferente da de um teorema, e basta para fazer uma cirurgia de coração aberto ou colocar um satélite em órbita. O formato da Terra é confirmado pela sombra sempre redonda que ela projeta na Lua durante os eclipses, pelas estrelas diferentes que se veem de cada hemisfério, pelas rotas de navios e aviões e pelas fotografias tiradas do espaço. Para negá-lo é preciso supor que todas essas evidências falham ao mesmo tempo e na mesma direção.
Esse exame já foi feito milhares de vezes com o formato da Terra e com a gravidade, que qualquer sala de aula consegue medir com um pêndulo. Passaram por ele a evolução dos seres vivos, a origem microbiana das infecções, a relação entre o cigarro e o câncer de pulmão, a inocência das vacinas no caso do autismo e o aquecimento do planeta causado pela atividade humana, que o IPCC, o painel do clima da ONU, declarou inequívoco em 2021. Nenhum desses resultados está à espera de votação.
A objeção de sempre é que a ciência muda de opinião. Isaac Asimov dedicou a ela o ensaio The Relativity of Wrong, publicado em português como A relatividade do erro. Acreditar que a Terra é plana é um erro, argumentou, e acreditar que ela é uma esfera perfeita também, porque é achatada nos polos e seu diâmetro é 0,3% maior na linha do Equador. Mas quem acha que os dois erros têm o mesmo tamanho está mais errado do que os dois juntos. Onde as evidências são muitas e chegam de frentes diferentes, a ciência avança ajustando casas decimais. Einstein corrigiu Newton na órbita de Mercúrio e as pontes continuam sendo calculadas com Newton, porque ali ele acerta. Onde as evidências independentes são poucas, por maior que seja o consenso, ainda cabem reviravoltas como a da úlcera de estômago, contada mais adiante.
Negar um resultado assim é permitido. O preço é trazer evidências melhores do que as que já estão na mesa. Reuni-las exige formação e anos de trabalho. Quem consegue pagar acaba tendo razão e, com sorte, um Nobel.
"Bom, é a minha opinião" é uma frase útil para falar de um filme ou de uma receita. Fatos medidos ficam fora do campo das opiniões. A opinião que os contradiz é um erro com outro nome, por mais seguidores que tenha quem a emite. Para um Reels do Instagram bastam dez minutos de gravação. Uma refutação precisa de dados.
Quais são os tipos de ciência e o que os diferencia
As ciências são classificadas por vários critérios ao mesmo tempo e daí saem rótulos que muitas vezes se misturam. Pelo que estudam, são formais ou factuais. As formais, como a matemática e a lógica, trabalham com ideias e provam seus resultados por demonstração, sem passar pelo circuito descrito acima. As factuais trabalham com fatos e se dividem em naturais, da física à biologia, e sociais, da economia à psicologia.
Pelo modo de trabalhar, distinguem-se a ciência teórica, que constrói modelos e deduz previsões a partir deles, e a experimental, que provoca o fenômeno em condições controladas para ver se a previsão se confirma. Quando o fenômeno não pode ser provocado, resta observar com método, como fazem a astronomia e a epidemiologia.
O último critério é a utilidade. A ciência básica busca entender, sem uma aplicação à vista, e a aplicada busca resolver um problema concreto. A medicina e a tecnologia depois transformam esse conhecimento em tratamentos e máquinas. A ciência dos alimentos o leva para a cozinha e a computação para cada tela, com um pé nas ciências formais, porque seus alicerces são matemática e lógica. A fronteira entre ciência básica e aplicada é difusa. Mais de uma ideia que parecia inútil foi parar, décadas depois, dentro de um celular.
| Tipo de ciência | Critério | O que faz | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Formal | O que estuda | Trabalha com ideias e demonstra | Matemática, lógica |
| Natural | O que estuda | Estuda a matéria e os seres vivos | Física, química, biologia, geologia |
| Social | O que estuda | Estuda as pessoas e suas sociedades | Economia, psicologia, sociologia, antropologia |
| Teórica | Como trabalha | Constrói modelos e deduz previsões | Relatividade geral |
| Experimental | Como trabalha | Provoca o fenômeno em condições controladas | Ensaio clínico de um medicamento |
| Observacional | Como trabalha | Mede o que não pode ser provocado | Astronomia, epidemiologia |
| Básica | Para que serve | Busca entender, sem aplicação à vista | Cosmologia, física de partículas |
| Aplicada | Para que serve | Busca resolver um problema concreto | Desenvolvimento de uma vacina, agronomia |
| Medicina | Campo aplicado | Usa a biologia e a química para prevenir e curar doenças | Cirurgia, farmacologia |
| Tecnologia | Campo aplicado | Transforma o conhecimento em máquinas e materiais | Engenharia, robótica |
| Ciência dos alimentos | Campo aplicado | Aplica a química e a microbiologia ao que comemos | Conservação, fermentação, nutrição, ciência da cozinha |
| Computação | Campo aplicado, com base formal | Estuda a informação e os algoritmos e constrói programas com eles | Programação, inteligência artificial |
Elaboração própria. A divisão entre ciências formais e factuais vem de Bunge (1977). Na tabela, as factuais aparecem como naturais e sociais. A distinção entre ciência básica e aplicada vem do Manual de Frascati, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE (OECD, 2015). As quatro últimas linhas são campos de ciência aplicada.
A história da camada de ozônio passa por várias dessas linhas. Em 1974, o mexicano Mario Molina e o americano Sherwood Rowland deduziram no papel que os clorofluorcarbonos (CFCs), gases usados em sprays e geladeiras, podiam destruir o ozônio da estratosfera. Era ciência teórica e básica, feita com equações. A observação veio em 1985, quando três pesquisadores britânicos relataram que o ozônio sobre a Antártida despencava a cada primavera austral. Dois anos depois foi assinado o Protocolo de Montreal para retirar esses gases aos poucos. Aquela química tinha saído do papel para um tratado internacional. A avaliação científica de 2022 calcula que, se as políticas atuais forem mantidas, a camada de ozônio voltará aos valores de 1980 por volta de 2040 na maior parte do planeta e por volta de 2066 sobre a Antártida.
O que a ciência não é
Boa parte do barulho em torno da ciência nasce de quatro mal-entendidos muito repetidos.
Não é uma crença
Uma crença pode se manter sem provas e sobreviver às provas em contrário. Uma afirmação científica vive enquanto resiste às tentativas de refutá-la. Quando falha repetidas vezes e aparece uma explicação melhor, ela cai, ainda que às vezes demore anos. Por isso a frase "eu acredito na ciência" soa bem e diz pouco. Quem a pronuncia confia, e com razão, num sistema em que todo mundo pode procurar o erro alheio e em que os erros, mais cedo ou mais tarde, ficam registrados.
É a mesma confiança que você deposita no avião que não projetou e no anestesista que nunca pôs à prova. Ela se distingue da obediência porque as evidências ficam à vista de qualquer pessoa com vontade e meios para revisá-las.
Não é uma escolha
Dá para escolher um time de futebol ou um partido político. Um vírus não pergunta a sua opinião sobre vacinas antes de infectar você e a gravidade age do mesmo jeito sobre quem a estuda e sobre quem a nega. Escolher não acreditar num fato medido muda a sua opinião. O fato continua onde estava.
A escolha vem depois, na hora de decidir o que fazer com o que foi descoberto. A ciência estima o efeito de cada decisão e tomá-la cabe à ética e à política.
Não é um livro acabado
Toda a matéria comum, a das estrelas e a do seu próprio corpo, responde por cerca de 5% da matéria e da energia do universo, segundo o modelo cosmológico padrão. Os outros 95% se dividem entre a matéria escura e a energia escura, dois nomes dados ao que ainda não se entende. Ainda há muitíssimo a descobrir e os cientistas são os primeiros a dizer isso.
Essa fronteira aberta convive com um núcleo firme. Um mapa com áreas em branco conserva o litoral já desenhado. A Terra vai continuar girando em torno do Sol no dia em que se souber o que é a energia escura, porque o que falta descobrir se soma ao que já se sabe e o refina.
Não é inimiga da religião
A ideia de uma guerra eterna entre ciência e fé se popularizou no século 19 com dois livros, o de John William Draper em 1874 e o de Andrew Dickson White em 1896. Os historiadores da ciência vêm desmontando essa ideia há décadas. Houve choques e o mais lembrado é a condenação de Galileu pela Inquisição, em 1633. São episódios de uma história bem mais emaranhada.
Os eruditos cristãos da Idade Média ensinavam que a Terra era uma esfera. Gregor Mendel, frade agostiniano, descobriu as leis da hereditariedade cruzando plantas na horta de sua abadia. A teoria que hoje chamamos de Big Bang foi proposta por um padre católico, Georges Lemaître. Segundo seus biógrafos, ele agiu junto ao Vaticano para que o papa parasse de apresentá-la como respaldo à doutrina da criação, o que Pio XII tinha feito num discurso de 1951. E o físico paquistanês Abdus Salam citou o Alcorão em seu discurso no banquete do Nobel de 1979.
Uma visão muito difundida sustenta que a ciência só pode tratar do que se deixa medir e que o sentido da vida ou a existência de Deus ficam fora do alcance de seus instrumentos. O paleontólogo Stephen Jay Gould a resumiu falando em dois magistérios que não se sobrepõem. João Paulo II escreveu em 1996 que a teoria da evolução é "mais do que uma hipótese" e lembrou que uma verdade não pode contradizer outra.
Uma pesquisa com 9.422 biólogos e físicos de oito regiões do mundo concluiu que, na maioria delas, os cientistas são menos religiosos do que seus conterrâneos. Ainda assim, mais da metade se declarou religiosa na Índia, na Itália, em Taiwan e na Turquia. Os que viam ciência e religião em conflito não passaram de 35% em nenhuma região. Nos Estados Unidos, 51% dos membros da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) ouvidos em 2009 disseram acreditar em Deus ou em um poder superior, contra 95% da população em geral. Para a maioria dos cientistas ouvidos, escolher entre ciência e religião é um falso dilema.
O choque aparece quando se pede a um texto sagrado que funcione como manual de geologia. Se uma leitura literal sustenta que a Terra tem seis mil anos, isso já é uma afirmação testável sobre o mundo e as medições dizem outra coisa. Há cientistas, como o biólogo Jerry Coyne, convencidos de que a incompatibilidade vai mais longe. Esse debate é filosófico e continua aberto. Enquanto ele não se resolve, muita gente reza de manhã e sequencia genomas à tarde.
Quatro exemplos de ciência em ação
A ciência muda e os seres vivos também. Da primeira mudança falam Newton e uma úlcera de estômago. Da segunda, um frasco com bactérias e um peixe com punho.
De Newton ao relógio do seu celular
Por mais de dois séculos, a gravidade de Newton previu eclipses e permitiu encontrar Netuno com lápis e papel antes que alguém o visse pelo telescópio. Falhava na órbita de Mercúrio. O astrônomo Urbain Le Verrier constatou em 1859 que o ponto dessa órbita mais próximo do Sol avançava um pouco mais rápido do que as equações permitiam, uma diferença que depois foi calculada em 43 segundos de arco por século. Em 1915, Albert Einstein aplicou ao problema sua nova teoria da gravidade, a relatividade geral, e a conta deu 43. Newton virou um caso particular de uma teoria mais ampla, válido para quase tudo o que acontece em escala humana.
As equações de Einstein trabalham para você toda vez que você abre um mapa no celular. Os relógios atômicos dos satélites do sistema de posicionamento global (GPS) atrasam cerca de 7 microssegundos por dia por causa da velocidade com que se movem e adiantam cerca de 45 porque a gravidade é mais fraca naquela altitude. O saldo é de 38 microssegundos diários. Sem a correção, o erro de posição cresceria mais de 11 km por dia. Por isso os relógios já saem de fábrica ajustados.
A úlcera que se curava com antibióticos
Até os anos 1980, a medicina atribuía a úlcera de estômago ao estresse e ao estilo de vida e a tratava reduzindo o ácido. Os remédios fechavam a ferida e a úlcera voltava. Dois médicos australianos, Barry Marshall e Robin Warren, relataram em 1984 ter encontrado uma bactéria desconhecida no estômago de 58 de 100 pacientes, entre eles quase todos os que tinham úlcera. Poucos colegas aceitavam que alguma coisa pudesse viver num ácido daqueles. Marshall bebeu uma cultura da bactéria. Dez dias depois, tinha uma gastrite confirmada por biópsia.
A medicina levou uma década para se render. Foram necessários ensaios mostrando que, eliminada a bactéria, a úlcera não voltava mais. Em 1994, um painel dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) recomendou acrescentar antibióticos ao tratamento das úlceras associadas à bactéria, já batizada de Helicobacter pylori. O Nobel veio em 2005. O ácido continuou na explicação e no tratamento. A causa de fundo mudou como manda o figurino, com um teste que outros médicos puderam repetir em seus próprios pacientes.
Evolução observada em doze frascos
O biólogo Richard Lenski distribuiu em 1988 uma mesma cepa da bactéria Escherichia coli em doze frascos e passou a transferir todos os dias uma gota de cada cultura para um frasco novo. O experimento continua. Já passou das 80 mil gerações, o que em humanos, a 25 anos por geração, equivaleria a cerca de 2 milhões de anos. A cada 500 gerações uma amostra é congelada, de modo que os descendentes podem competir com os próprios ancestrais.
Por volta da geração 31.500, uma das doze populações começou a se alimentar de citrato, uma substância que estava no frasco desde o primeiro dia e que essa espécie não consegue aproveitar na presença de oxigênio. Ao descongelar amostras antigas e repetir a história, a equipe verificou que a novidade dependia de pelo menos uma mutação anterior, surgida antes da geração 20 mil. Ali a evolução pôde ser rebobinada e vista de novo.
O peixe que a teoria anunciou antes de ele aparecer
Se os animais de quatro patas descendem de peixes, tem de ter existido uma forma intermediária. Pelos fósseis conhecidos na época, ela devia estar em rochas de água doce com cerca de 375 milhões de anos. A equipe dos paleontólogos Neil Shubin e Ted Daeschler procurou onde rochas assim afloravam e escolheu a ilha Ellesmere, no Ártico canadense. Foi lá que apareceu, em 2004, o Tiktaalik roseae, um peixe com escamas e nadadeiras, mas com pescoço móvel e um punho funcional.
Em 2010 foram descritas na Polônia pegadas atribuídas a animais de quatro patas, cerca de 10 milhões de anos mais antigas do que o primeiro peixe conhecido do grupo do Tiktaalik. Há especialistas que duvidam dessa leitura. Se ela se sustentar, a transição começou antes do que se pensava e o Tiktaalik seria um parente tardio dos primeiros caminhantes, que conservava a forma intermediária. A anatomia que a teoria anunciava apareceu onde foi procurada. A cronologia ficou em revisão.
Em defesa da ciência e de quem a faz
Uma pesquisadora passa quatro anos medindo um efeito que talvez não exista. Quando enfim tem um resultado, ela o entrega a colegas cujo trabalho é procurar erros nele. O mundo dedica a esse ofício o equivalente a quase 9 milhões de pessoas em tempo integral, segundo a contagem da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) com dados de 2018. A maioria nunca vai aparecer numa manchete. Algumas dessas vidas ganham espaço na nossa seção Heróis da ciência.
Ao lado da pesquisadora trabalham quem explica essa ciência para trinta adolescentes numa segunda-feira de manhã cedo e quem a defende num consultório diante de um mito que chegou pelo WhatsApp cinco minutos antes.
Esse trabalho pode ser contado em vidas. Das mortes que as vacinas evitaram em meio século, estima-se que 146 milhões seriam de crianças que não tinham completado cinco anos. Também dá para olhar para cima, onde o buraco na camada de ozônio vai se fechando porque o mundo ouviu a tempo dois químicos e as pessoas que mediam o céu da Antártida.
Quem despreza a ciência costuma fazer isso com um celular na mão e a carteira de vacinação na gaveta. Pode se dar a esse luxo porque outros fizeram o trabalho.
Uma parte de quem ataca a ciência ganha dinheiro com isso. O negacionismo como negócio é antigo. Em 1969, um documento interno da fabricante de cigarros Brown & Williamson registrou que o produto da empresa era a dúvida, porque semeá-la era o melhor jeito de competir com os fatos que o público já conhecia sobre o cigarro. O médico que disparou em 1998 o alarme sobre vacinas e autismo tinha planejado negócios para explorá-lo, entre eles testes de diagnóstico com os quais previa faturar até 28 milhões de libras por ano, como a revista BMJ documentou mais tarde.
Hoje esse negócio cabe num celular. Um estudo de 2024 analisou três influenciadores de bem-estar que usavam as vacinas para assustar seus seguidores no Instagram e depois vendiam a eles produtos e serviços de saúde. Outro, sobre 59 grupos dedicados a espalhar informações falsas sobre vacinação, mostrou que a atividade deles depende das ferramentas com que as próprias plataformas permitem ganhar dinheiro. A mentira que indigna é mais compartilhada do que a verdade que entedia, e num negócio que vive de atenção isso é dinheiro.
O resto nega de graça o que não entende. Não entender como funciona uma vacina ou um satélite é normal e tem conserto. O problema começa quando essa falta de compreensão é tomada por prova. Cinco estudos publicados em 2022 compararam o que as pessoas sabiam sobre sete temas de amplo consenso científico com o que achavam que sabiam. Os que mais se opunham ao consenso eram os que menos sabiam e os mais convencidos de que sabiam.
Pior ainda é quando essa certeza sem estudo decide pelos outros. O movimento antivacina é o caso mais claro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu em 2019 a hesitação vacinal entre as dez ameaças à saúde global. Quem recusa a vacina do sarampo para o filho decide também pelo bebê do vizinho, que ainda não tem idade para recebê-la, e pelo paciente com câncer que a quimioterapia deixou sem defesas. É assim que um erro privado vira um surto e um surto vira a perda do que um país levou décadas para conquistar.
A dúvida é bem-vinda, porque é o ponto de partida do método. O terraplanista do vídeo faz bem em não aceitar algo só porque uma autoridade diz. A outra metade é sair para medir e aceitar o resultado que der.
Num mesmo laboratório trabalham pessoas que não concordariam em quase mais nada. Elas se entendem porque uma medição diz a mesma coisa em São Paulo e em Seul, para o religioso e para o ateu. Ali é rotina um desconhecido do outro lado do mundo corrigir você e, com isso, lhe fazer um favor.
Diante de qualquer afirmação, inclusive as desta página, o pensamento crítico pede que você se pergunte como se sabe aquilo e que evidência faria você mudar de ideia. Se nenhuma evidência imaginável pode fazer você mudar, o que você tem é uma crença e convém saber disso.
O método que hoje é contestado num vídeo de um minuto é o mesmo que esvaziou as enfermarias de pólio e pôs esse celular na mão de quem grava. Eratóstenes mediu uma sombra há mais de 2.200 anos e qualquer adolescente pode conferir hoje se ele tinha razão. Essa herança é de todos e sua única regra de admissão é mostrar as provas.
Que dado já obrigou você a mudar de opinião? Conte para a gente no @science.driven. As melhores respostas viram artigos e dizemos de quem vieram. Se quiser saber o que vem por aí, deixe seu e-mail no rodapé desta página.
O que é ciência em um infográfico
Infográfico
O que é ciência
Um método para errar cada vez menos. E tudo o que esse método já descobriu.
01
O método é um circuito
Observar
Algo chama a atenção ou não se encaixa.
Perguntar
Por que acontece e como daria para medir.
Propor uma hipótese
Uma explicação que possa falhar.
Prever
Se estiver certa, o que deve aparecer.
Colocar à prova
Com um experimento ou uma observação.
Publicar e repetir
Outros revisam e tentam refutar.
Se a previsão falha, é preciso voltar e rever a hipótese. Se acerta, alguém a ataca de outro ângulo.
02
Três palavras que se confundem
Hipótese
Propõe uma explicação que ainda precisa ser testada.
Lei
Descreve uma regularidade. Diz o que acontece.
Teoria
Explica por que acontece, com evidências acumuladas.
Uma teoria não vira lei ao ser confirmada. As duas respondem a perguntas diferentes.
03
Tipos de ciência
Pelo que estuda
Pelo modo de trabalhar
Para que serve
04
A prova em números
É o saldo das vacinas desde 1974. Dessas mortes, 146 milhões seriam de menores de cinco anos.
Estimativa com modelosÉ o que a relatividade de Einstein obriga a corrigir nos relógios dos satélites do GPS.
MedidoUm mesmo experimento as vê evoluir desde 1988, frasco a frasco.
ObservadoVoltará aos valores de 1980 se as políticas atuais forem mantidas.
Projeção05
Núcleo firme, fronteira aberta
Consolidado
A Terra é uma esfera achatada nos polos
Os seres vivos evoluem
As vacinas previnem doenças
O universo tem cerca de 13,8 bilhões de anos
Em discussão
O que são a matéria escura e a energia escura, 95% do universo
Como a vida surgiu
Quando os primeiros vertebrados pisaram em terra firme
Quanto media o estádio usado por Eratóstenes
O que falta descobrir se soma ao que já se sabe e o refina.
06
O que a ciência não é
Uma crença
Uma escolha
Um livro acabado
Inimiga da religião
Escolher não acreditar num fato medido muda a sua opinião. O fato continua onde estava.
science-driven.pro
Referências
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Perguntas frequentes sobre ciência
O que é ciência em poucas palavras?
A ciência é um método para descobrir como o mundo funciona e também o conjunto de conhecimentos obtidos com ele. Consiste em propor explicações que possam falhar e testá-las com medições que outras pessoas consigam repetir. O que resiste a esses testes é mantido e o que falha repetidas vezes é descartado, não importa quem tenha proposto.
Para que serve a ciência?
A ciência serve para entender o mundo e tomar decisões com menos erros. Dela vêm os antibióticos, a rede elétrica, o GPS e as vacinas, que segundo as estimativas evitaram 154 milhões de mortes desde 1974. Serve também para descobrir o que não funciona antes de gastar dinheiro ou saúde com isso e para corrigir o que se dava como certo quando aparecem evidências melhores.
Quais são as etapas do método científico?
O esquema clássico do método científico tem seis etapas. Observar um fenômeno, formular uma pergunta, propor uma hipótese, deduzir uma previsão que possa ser testada, colocá-la à prova com experimentos ou observações e publicar o resultado para que outros o repitam. As etapas formam um circuito, porque quando a previsão falha é preciso voltar e rever a hipótese.
Qual é a diferença entre hipótese, lei e teoria científica?
Uma hipótese é uma explicação proposta que ainda precisa ser testada. Uma lei descreve uma regularidade da natureza, por exemplo como um objeto cai, sem explicar a causa. Uma teoria é uma explicação ampla e bem fundamentada, apoiada em evidências acumuladas. Uma teoria não vira lei quando é confirmada, porque as duas respondem a perguntas diferentes.
Qual é a diferença entre ciência e pseudociência?
A ciência faz afirmações que podem falhar e muda quando as evidências a contradizem, enquanto a pseudociência imita seu vocabulário e foge dos testes que poderiam desmenti-la. Uma pergunta útil é qual resultado mostraria que a afirmação é falsa. Se não existe nenhum, a afirmação fica fora da ciência empírica.
Ciência e religião são compatíveis?
A maioria dos cientistas ouvidos em pesquisas não vê conflito entre ciência e religião. Segundo uma visão difundida, a ciência estuda o que pode ser medido e deixa de fora o sentido da vida ou a existência de Deus. O choque aparece quando a leitura literal de um texto sagrado faz afirmações testáveis sobre a idade da Terra. Alguns autores defendem uma incompatibilidade mais profunda e esse debate continua aberto.